08/07/2014 | 09:41 - Atualizado em: 08/07/2014 | 09:41

'A Argentina agiu com inoperância e arrogância', diz economista argentino

A opinião é de Guillermo Vuletin, do programa de Economia Global e Desenvolvimento da Brookings Institution, sobre a negociação do país com credores internacionais

Mariana Mainenti mariana.mainenti@brasileconomico.com.br
"O governo tenta agora impor o default como uma ameaça aos credores e criartensão para obter melhores condições de negociação", diz Vuletin
Foto:  Divulgação

Brasília - Assim como Neymar deixou o último jogo do Brasil porque o juiz não colocou limites à falta de cumprimento das regras pelos jogadores colombianos, a Argentina encontra-se em situação de quase default porque o governo da presidente Cristina Kirshner teve uma postura “arrogante e imatura” na negociação com credores internacionais. A opinião é do economista argentino Guillermo Vuletin, do programa de Economia Global e Desenvolvimento da Brookings Institution, think tank de Washington. Em entrevista ao Brasil Econômico, Vuletin diz que o governo brasileiro já tem “problemas demais” e está correto em não cogitar ajudar financeiramente o país vizinho, que ele classifica de “causa perdida”. Na sua opinião, diferentemente de Uruguai, Paraguai e Bolívia, o Brasil não precisa temer um “efeito contágio” de um possível default. Mas a economia argentina poderá pagar caro pelo fracasso nas negociações com os credores.

O sr. acha que o risco de default poderia ter sido evitado?

Sim, o default seguramente podia ter sido evitado. No jogo entre Brasil e Colômbia, não havia respeito às regras. O juiz deveria ter parado toda essa loucura antes, porque se tivesse feito isso, não teria acontecido o que aconteceu a Neymar. O mesmo raciocínio se pode aplicar ao default argentino. Se as regras tivessem sido cumpridas ou o governo tivesse negociado com os credores desde o início, os ânimos teriam se acalmado. Mas a Argentina tem um espírito provinciano e o governo gerenciou uma questão financeira internacional importante como quem gerencia questões domésticas. Em qualquer reestruturação, precisa haver acordo. O governo agiu em relação a isso da mesma forma que age em relação a outros problemas, como a inflação e o déficit em conta corrente: com inoperância e arrogância. A área econômica mostrou um grande despreparo para lidar com essas questões. Um bom ministro da economia deveria poder ter opinião sobre o que está acontecendo e apresentar à presidência as soluções disponíveis. Mas no governo nacionalista da Argentina, todas as decisões são tomadas na Casa Rosada.

Quais podem ser as consequências econômicas e financeiras para a Argentina?

Já estamos mal porque temos um grande déficit fiscal, um grande déficit comercial, uma inflação muito alta, uma grande depreciação da moeda, poucos investimentos privados e altíssimas taxas de juros. Se tivermos ainda um default, todos esses problemas tendem a piorar. Teríamos um aumento das taxas de juros para os empréstimos, o que significaria uma dificuldade maior de financiar o déficit fiscal, menos investimentos, uma maior contração da economia, saída de capitais do país e problemas com o câmbio. Mas essa postura do governo não me surpreende porque em questões domésticas como o controle da inflação e do câmbio temos visto o mesmo tipo de atitude. O governo diz que a inflação na Argentina é culpa dos empresários que querem lucrar. São posturas imaturas.

Como seria a forma adequada de gerenciar a situação?

Alguém pode fazer algo porque crê que é o correto ou porque não tem opção. O governo está se dispondo a negociar porque não lhe restou outra opção, está encurralado. Mas poderia ter se disposto a negociar com os administradores dos fundo bem antes, para que houvesse a negociação antes mesmo da existência da possibilidade de um default. O governo tenta agora impor o default como uma ameaça aos credores e criar tensão para obter melhores condições de negociação. Está mostrando uma postura intransigente, mas, na verdade, o pior que poderia ocorrer, para ambas as partes, o governo (ou seja, a economia argentina) e os investidores, seria o default. Com o default, perdemos todos. Quando o governo fala em pagar de forma justa e equitativa, está querendo dizer que não pode dar aos credores muito mais do que deu aos outros, que já aceitaram as condições. Numa reestruturação, o que se pode negociar é como se paga, se o pagamento é feito em dinheiro ou títulos, mas a dívida tem que ser paga. É muito arriscado esse tipo de estratégia.

O sr. acha que um default argentino poderia colocar em risco a economia de outros países em desenvolvimento?

No caso do Brasil, creio que o impacto é menor, porque é uma economia muito maior, com um volume grande de transações. É certo que vocês vendem uma parte importante de suas exportações para a Argentina, mas o país não é totalmente dependente do nosso mercado. Em caso de default, com a economia argentina se desacelerando muito mais, os principais prejudicados vão ser países menores, como Uruguai, Paraguai e Bolívia, que dependem do comércio conosco. Como a Argentina já esteve por vários anos fora do mercado de capitais, não acho que haveria risco de contágio do Brasil.

A ação diplomática de apoio à Argentina sendo orquestrada na Organização dos Estados Americanos (OEA), com o apoio do governo brasileiro, pode de fato ajudar a Argentina?

Minha sensação, a partir de como funcionam os mercados financeiros, é que qualquer tipo de declaração em um foro como a OEA será irrelevante, porque o foro que julga o que diz respeito hoje à Argentina é a justiça americana, não a OEA.

E o que o sr. acha do fato de o governo brasileiro ter descartado a possibilidade de ajuda financeira à Argentina?

Acho que vocês já têm problemas demais como estão, principalmente, na questão fiscal. Eu não sei se no nível da política doméstica seria uma boa opção. Na cabeça de um brasileiro poderiam se passar coisas como: “Além da Copa do Mundo, ainda vamos gastar dinheiro com a Argentina?”. E mesmo para economias maiores, como a chinesa, o raciocínio também vale: um chinês não conseguiria entender, assim como não está claro para mim o que poderia ganhar um país em fazer um contrato de empréstimo com a Argentina. Não creio realmente que um empréstimo seria bom para o Brasil, pois o governo brasileiro seria visto como alguém que apoia esse tipo de comportamento da Argentina e acho que o Banco Central brasileiro e o Ministério da Fazenda conhecem muito bem como funcionam as coisas. O Brasil já tem suficientes

Notícias Recomendadas