MPME
Micro, Pequenas e Médias Empresas

1ª Edição: Criar é a Solução

A indústria criativa tem se sobressaído, em qualquer cenário econômico, desde meados dos anos 1990, quando começou a ser foco de políticas de desenvolvimento em diversos países. Setores como tecnologia, design e publicidade são as grandes apostas para 2015.

Vocação para ter boas idéias

Total produzio pelo setor da economia criativa cresceu 69,8% entre 2004 e 2013, quando gerou R$126 bilhões, segundo estudo da Firjan

Textos: Iolanda Nascimento
redacao@brasileconomico.com.br

Enquanto os prognósticos de desempenho geral da economia brasileira são cada vez menos otimistas para este ano, as expectativas de crescimento da chamada economia criativa, ou indústria criativa, são muito animadoras. Essa cadeia tem se sobressaído em qualquer cenário desde meados dos anos 1990, quando começou a ser foco de políticas de desenvolvimento em diversos países, mas nos períodos menos propícios mostra ainda mais potencial, pois abriga negócios oriundos da imaginação, criatividade e capacidade intelectual, que geram substancial valor às economias, são capazes de minimizar os efeitos de crises e, melhor, de até transformá-las em oportunidades, além de promover a inclusão social. Por isso e pela vocação do brasileiro para ser criativo, asseguram os especialistas, a cadeia talvez até nem alcance neste ano a mesma média anual de crescimento da última década, de quase 7%, mas seus números continuarão ascendentes.

"Os anos de 2015 e 2016 serão impactados pelas políticas de ajuste fiscal, com elevação da carga tributária, aumento das taxas de juros, retração do consumo. Não é um cenário muito favorável para a expansão dos negócios. Porém, consideramos que o setor da economia criativa é justamente aquele que pode reagir com maior velocidade, pois tem mais flexibilidade para ajustar sua estrutura de custos e mais resiliência para se adaptar às novas condições do mercado", avalia Debora Mazzei, coordenadora de projetos de economia criativa do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Para Guilherme Mercês, gerente de economia e estatística do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), o cenário macroeconômico deverá impactar o ritmo de crescimento da cadeia, principalmente neste ano, mas ela continuará em expansão:

"Cresce menos porque essa área precisa de investimento e a grande questão é se as empresas, que costumam investir com recursos próprios, que minguam em época de crise, terão essa capacidade". De acordo com estimativas do estudo mais recente sobre a economia criativa do país, o total produzido pela cadeia cresceu 69,8% em termos reais entre 2004 e 2013, quando gerou cifra próxima de R$ 126 bilhões. O valor é baseado na massa salarial formal e correspondeu a 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, cujo avanço no período foi bem inferior, de 36,4%. Elaborada pelo Sistema Firjan, a pesquisa "Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil", na quarta edição, mostra ainda que o número de empresas da cadeia também cresceu em média similar e saltou 69,1% em dez anos, passando de 148 mil em 2004 para 251 mil ao final de 2013, percentual superior ao de 35,5% do número total de companhias criadas no país.

Sobe e desce:

Sobe: Criada em 2012, a Secretaria da Economia Criativa tem o objetivo de formular, implementar e monitorar as políticas públicas voltadas para a cadeia.

Desce: As trocas de ministros da Cultura e de secretários, desde a formação da pasta da Economia Criativa, emperraram a implantação dos projetos.

A Firjan divide a cadeia criativa em quatro grandes áreas: consumo, que engloba arquitetura, publicidade, design e moda; cultura, envolvendo patrimônio e artes, artes cênicas, música e expressões culturais; mídias, subsegmentada em editorial e audiovisual; e, por fim, tecnologia, composta pela biotecnologia, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e tecnologia da informação e comunicação (TIC). Segundo o mapeamento, a área de consumo foi a que mais se destacou na última década até 2013, por dobrar a força de trabalho, para 423 mil pessoas empregadas formalmente no último ano pesquisado, e abrigar os setores que mais evoluíram: o publicitário, que liderou o ranking de contratações, e o design, na segunda colocação.

Os três segmentos que envolvem a área de tecnologia duplicaram o número de profissionais, somando 306 mil no encerramento de 2013. Na avaliação de Mercês, todas as áreas têm grande potencial, mas ele aposta em crescimento maior nas de P&D, biotecnologia e design."O Brasil ainda não é um país de ponta em P&D e tem o desafio de incorporar muita tecnologia nessa área. Na biotecnologia, o país tem grandes perspectivas pelo potencial da sua biodiversidade. O design aumenta muito o valor agregado da indústria e o país ainda é incipiente em design de produto."

Incentivo do poder público

"O mercado criativo cresceu mais por vocação do que por estímulos via políticas públicas de desenvolvimento e financiamento, já que o país despertou apenas recentemente para o potencial da cadeia, criando vários órgãos, sejam federal ou estaduais, para impulsioná-la, o que é extremamente positivo, pois ela pode ser o vetor de crescimento que o Brasil precisa", diz Mercês. O governo federal criou em 2012 uma Secretaria da Economia Criativa com o objetivo de formular, implementar e monitorar as políticas públicas voltadas para a cadeia, especialmente para os micro e pequenos empreendedores criativos. O plano de ação elaborado pela Secretaria vem aos poucos saindo do papel e outras pastas, como a dos ministérios de Ciência e Tecnologia e de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, também implementam programas para desenvolver a cadeia.

Mas muitos especialistas têm críticas. Entre elas, afirmam, as trocas de ministros da Cultura e secretários desde a implantação da pasta da Economia Criativa emperraram a implantação dos projetos. Dizem também que o Ministério ao qual a Secretaria está vinculada, o da Cultura, torna a política para a cadeia menos abrangente. "Os países que mais se destacam na economia criativa têm essa área vinculada a Ministérios estratégicos para o desenvolvimento. No Japão, está sob a Casa Civil. Na China, ganhou tanto destaque que o governo agora está mudando de 'Made in China' para 'Created in China'. Isso porque a indústria criativa vai além da cultura", diz Gabriel Pinto, coordenador do Programa Indústria Criativa do Sistema FIRJAN, que tem atuado fortemente desde 2001 com alguns setores da cadeia e criou essa divisão em 2013 para ampliar a atuação e fomentar ainda mais os negócios.

Foto: Antonio Batalha/Divulgação
Gabriel Pinto: área deve estar ligada a Ministério estratégico

Para os especialistas, a indústria criativa brasileira enfrenta ainda desafios de financiamento para o desenvolvimento de seus projetos, rincipalmente porque boa parte dos bens é intangível; grande demora na concessão de patentes; e comercialização dos bens, entre os principais. Desafios que são ainda maiores quando analisamos que a maioria das empresas tem tamanho médio, micro e pequeno; portes que ainda esbarram em muitos problemas de gestão.

Exportação chega a US$ 7,5 bi

Os principais especialistas mundiais reconhecem o potencial criativo brasileiro, mas o país está fora dos rankings do último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os números da cadeia em âmbito global, elaborado com informações entre os anos de 2002 e 2008. No documento, o Brasil não aparece entre os vinte maiores produtores, apesar de ter elevado significativamente as exportações de produtos e serviços criativos no período estudado: passou de US$ 2,5 bilhões para US$ 7,5 bilhões, alta um pouco superior a 200%.

Os dados mostram também que o Brasil manteve superávit comercial, já que as importações, mesmo com crescimento maior em termos percentuais, de 226%, saíram de US$ 1,78 bilhão para US$ 5,81 bilhões. A China desponta como maior exportadora, com US$ 85 bilhões do total de US$ 592 bilhões do comércio mundial criativo em 2008, valor que puplicou em seis anos, com uma taxa de crescimento médio anual de 14%. Conforme a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a cadeia movimenta US$ 8 trilhões anualmente, representa entre 8% e 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e cresce a taxa entre 10% e 20% por ano.

O último mapeamento do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) sobre a cadeia não faz comparativos, como no anterior, por falta de novos dados da ONU, diz Guilherme Mercês, gerente de economia e estatística da entidade. No entanto, o anterior colocava a produção brasileira entre as melhores colocadas no quesito participação no PIB e em um universo de 14 países criativos estudados. Para alguns especialistas, faltam informações sobre o setor criativo do país.Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, a cadeia tem 239 mil empresas ativas, emprega 1,7 milhão de profissionais e representa 4,16% do PIB brasileiro, movimentando R$ 150 bilhões por ano.

ERRATA

Diferentemente do que foi publicado na frase da página 8, no suplemento Micro, Pequenas e Médias Empresas - Produtos e Serviços, em 21 de janeiro de 2015, Luciane Ortega é vice-coordenadora da Agência USP de Inovação.

Mercado de trabalho aquecido e bem remunerado

Setor requer, além da criatividade, qualificação e elevado nível de especialização. Salário médio chega a R$ 5 mil

Os profissionais da economia criativa têm mais oportunidades de emprego e remuneração acima do mercado de trabalho brasileiro, segundo o "Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil", estudo elaborado pelo Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). Entretanto, os atuais fatores macroeconômicos também deverão afetar para baixo o ritmo de oferta de novas vagas e os aumentos reais nos salários desses trabalhadores, diz Guilherme Mercês, gerente de economia e estatística da entidade, que, no entanto, não arrisca previsões. "Vão crescer, mas abaixo do observado nos últimos anos, especialmente neste ano."

Foto: Antonio Batalha/Divulgação

Com 892,5 mil profissionais ao final de 2013, a economia gerou 90% mais empregos formais entre 2004 e 2013, com aumento na oferta em todos os estados do país. A expansão é bem superior a do mercado de trabalho brasileiro, de 56% no período. Em relação ao total da força de trabalho formal também houve progressão: de 1,5% em 2004 para 1,8% em 2013. Mercês observa que uma das informações mais importantes apresentadas nesse estudo é a de que grande parte dos profissionais (80,6%) atua em empresas tradicionais, ou seja, que não são consideradas puramente criativas, como uma agência de publicidade ou uma startup de tecnologia. "Eles estão em quase todos os setores da economia, da indústria automobilística às serralherias." Na indústria de transformação, por exemplo, estão 24,7% desses profissionais.

Segundo o estudo, em todas as áreas da cadeia criativa os profissionais têm rendimento acima da média brasileira. Em 2013, o salário médio dessa força de trabalho alcançou R$ 5.422 ante média de R$ 2.073 do trabalhador brasileiro. A melhor remuneração é atribuída à melhor formação, já que a maioria dessas profissões requer, além da criatividade, conhecimento, qualificação e muita especialização. No período estudado, a evolução real do rendimento médio dos profissionais do setor criativo foi de 25,4%, inferior aos 29,8% da expansão média da renda do trabalhador brasileiro. Para Mercês, a evolução maior dos salários mais baixos é sinal positivo. "Mostra que o mercado de trabalho brasileiro está mais equânime, com melhor distribuição de renda."

"Estes profissionais estão em quase todos os setores da economia, da indústria automobilística às serralheiras"

Guilherme Mercês
Gerente de economia e estatística da Firjan

Grande expansão na publicidade e no design

Setores são beneficiados pela ampliação do mercado consumidor e das novas mídias, que possibilitaram meios inovadores de aproximação entre empresas e clientes.

Foto: Claudio Roberto/Divulgação
Baldissera:"Design é dinâmico e atende a todos os setores"

Foto: Divulgação
Gontijo:"A publicidade cresce, mas é um mercado concorrido"

Foto: Divulgação
Gelli:"Novo Supersimples pode dobrar o número de empresas"

O mercado publicitário brasileiro, que movimenta em torno de R$ 50 bilhões por ano e está entre os dez principais do mundo, disparou na última década. Mapeamento sobre a economia criativa do país, elaborado pelo Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), mostra que essa área foi a que mais empregou, passando de 45,7 mil profissionais formais em 2004 para 154,8 mil em 2013. A alta de 238,5% é atribuída à expansão do mercado consumidor, do poder de compra do brasileiro e das novas mídias, que possibilitaram meios inovadores de aproximação entre empresas e clientes. Fatores que exigem a "diferenciação de produtos e marcas como ferramenta de competitividade", diz o estudo.

A mesma conjuntura também foi responsável pelo avanço do mercado de design no país, segundo colocado no ranking de geração de postos de trabalho no mesmo período, saltando de 42,6 mil para 87 mil profissionais formais, um avanço de 104,3%. Somente nas empresas de design, estimadas em quase 700, estão alocados cerca de 4,2 mil profissionais, informa o estudo Diagnóstico do Design Brasileiro, de 2014. Gustavo Gelli, presidente da Associação Brasileira de Design (Abedesing), diz que nos últimos três anos o setor realmente deu um salto ao conseguir mostrar a importância do design estratégico para os negócios, mas afirma que esse mercado ainda é bastante novo no Brasil e tem muito a crescer. "Com a flexibilização do Supersimples, poderá dobrar o número de empresas."

Gelli estima que a área passe de um faturamento de R$ 600 milhões em 2014 para em torno de R$ 2,5 bilhões em 2018 e coloca nas contas, especialmente, os estímulos ao setor, que vêm sendo contemplado por linhas de financiamento públicos -- particularmente federal, como as linhas do BNDES --, tanto para pesquisas de produtos que envolvem design como para desenvolvimento apenas de projetos de design. "O governo tem entendido que investir em design é investir em inovação, fundamental para a competitividade do país", afirma Gelli, que também é um dos fundadores da Tátil Design de Ideias, que está há 25 anos no mercado e é a criadora da marca das Olimpíadas e Paraolimpíadas de 2016, jogos a serem realizados no Rio de Janeiro.

A Tátil, com escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, tem 86 profissionais e, afirma Gelli, é uma das maiores do setor, marcado por empresas com no máximo 35 funcionários. E evolui também substancialmente. "Nos últimos quatro anos, cresceu entre 20% e 25% ao ano em faturamento." No ano passado, o faturamento da Tátil, não revelado, evoluiu 18% e para 2015 a previsão é de expansão também. "Este ano não será maravilhoso, mas não será inferior a 2014. Momentos de crise são bons para o design porque são também de superação e as empresas precisam investir para conquistar consumidores, mais disputados nessas fases", diz Gelli, mantendo em sigilo as estimativas.

A Entre Gestão & Design, no mercado desde 2009 também tem perspectivas otimistas para este ano, de alta de ao menos 50% no faturamento e deverá dobrar para dez o número de funcionários fixos a fim atender o aumento previsto de demanda, afirma seu fundador, Lucas Baldissera. "O design é bastante dinâmico e consegue atender a todos os setores. Nos últimos dois anos, crescemos em torno de 80% por ano em função não somente da evolução do próprio mercado, mas também do modelo de negócios que criamos, de captação de novos trabalhos e melhoria da produtividade", diz Baldissera, que optou por incubar sua empresa para absorver mais conhecimento, ter apoio de consultores em diversas áreas e infraestrutura para o desenvolvimento de projetos.

Incubada na Fundação Softville, de Joinville (SC) desde 2010, a Entre Gestão & Design já é uma empresa premiada por seus trabalhos, como o ABRE de Embalagem Brasileira recebidos em 2010 e 2014. Inicia este ano processo de graduação, isto é, começa a planejar as instalações próprias para deixar a incubadora em dois anos. Mesmo com cerca de 90% das encomendas oriundas do setor industrial, para Baldissera o grande desafio do design brasileiro é a indústria se sensibilizar para os benefícios desse investimento. "Não é investimento apenas na criatividade e no belo, mas em conhecimentos específicos que os designers têm de cada área para o qual desenvolvem projetos, que resultam em produtos e marcas que geram muito valor, principalmente em momentos de baixo crescimento."

Outra pequena jovem empresa que tem conseguido bons resultados na largada é o Grupo Mesa, agência de publicidade do Rio de Janeiro. Paulo Gontijo, um dos cinco sócios, conta que a agência foi criada em 2012, reunindo as competências de cada um dos fundadores, com uma proposta diferenciada de atuação: ser uma empresa publicitária tradicional, mas ir além, elaborando e desenvolvendo projetos, incluindo captação de patrocinadores e recursos, em conjunto com alguns clientes, como o Grupo Estação, que reúne salas de cinema, livrarias e cafés no Rio de Janeiro. "Esse é um mercado em crescimento, mas muito concorrido e com grandes agências. Se operássemos apenas da maneira tradicional, talvez os resultados não viessem tão rápido", afirma Gontijo, sem revelar números, observando que este ano será tão bom que a agência está mudando para um espaço 50% maior e deverá contratar mais três ou quatro funcionários.

Ponto a ponto:
  • Mapeamento sobre a economia criativa do país, elaborado pelo Sistema Firjan, mostra que a publicidade foi a área que mais empregou na última década, passando de 45,7 mil profissionais formais em 2004 para 154,8 mil em 2013.
  • Somente nas empresas de design, estimadas em quase 700 em todo o país, estão alocados cerca de 4,2 mil profissionais, informa o estudo Diagnóstico do Design Brasileiro, de 2014.
  • O setor vem sendo contemplado por linhas de financiamento público - particularmente federal, como as linhas do BNDES - tanto para pesquisas de produtos que envolvem design como para desenvolvimento apenas de projetos de design.

Sebrae vai investir R$ 70 milhões na economia criativa

Ações priorizam as artes visuais, audiovisual, design, moda, música e artesanato, nos estados do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Pará, Espírito Santo e Minas Gerais.

Com 180 projetos direcionados para a cadeia criativa espalhados pelo Brasil, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) prevê investir R$ 70 milhões nesses programas, entre 2015 e 2018, a maior parte deles concentrada nos estados do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Pará, Espírito Santo e Minas Gerais. Debora Mazzei, coordenadora de projetos de economia criativa da entidade, explica que o Sebrae definiu, para a sua atuação, essa cadeia como "o conjunto de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade, gerando valor econômico". Nesse contexto, as ações priorizam as artes visuais, o audiovisual (cinema, televisão e publicidade), design, digital (games, aplicativos e startups), editoração, moda, música artesanato e comunicação (TV, rádio e internet).

Foto: Luludi Luz/Divulgação
Débora Mazzei:"O principal objetivo do programa do Sebrae é reduzir a dependência da subvenção"

"Num primeiro momento definimos nossa atuação na difusão da cultura empreendedora junto aos empreendimentos atuantes na economia criativa, como forma de contribuir para uma estruturação e planejamento dos negócios, buscando assim, reposicionamento dos empreendimentos, bem como melhoria de seus resultados. A expectativa é que os empreendimentos atendidos pelo Sistema Sebrae entendam a demanda do mercado para seus produtos/serviços e ampliem sua carteira de clientes, alcançando a sustentabilidade de suas atividades e fortalecimento do segmento em que estão inseridos", diz Debora.

Entre os novos programas, Debora cita a parceria do Sebrae com a Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro) para capacitar empresários do setor audiovisual, área que vem crescendo expressivamente no Brasil e requerendo cada vez mais profissionais qualificados. Dividido em quatro módulos num total de 96 horas, o programa amplia os conhecimentos e aperfeiçoa as técnicas dos pequenos negócios independentes. "São Paulo foi a primeira cidade a receber os módulos, que capacitou 44 empresários, e o curso será ministrado em outras quatro cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Porto Alegre."

CONSULTORIA

7 são as unidades da Incubadoras Brasil Criativo, um dos programas da Secretaria de Economia Criativa, em que o Sebrae tem pontos de atendimento. Estão localizadas no Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Pará e Rio Grande do Norte

3,5 mil é o número de produtores e fazedores culturais que já receberam atendimento pela Rede de Incubadoras Brasil Criativo, que oferecem serviços como balcões de crédito, formalização, assessoria jurídica e uma área compartilhada permanente de trabalho colaborativo.

Além disso, o Sebrae tem pontos de atendimentos em sete Incubadoras Brasil Criativo (Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Pará e Rio Grande do Norte), um dos programas da Secretaria de Economia Criativa. Na rede (presente hoje em oito estados, totalizando oito incubadoras, mas que deve chegar a 13 até o final deste ano), os criativos têm acesso a cursos e consultorias, planejamento estratégico, assessoria contábil e de comunicação e marketing, elaboração de projetos e captação de recursos, além de acompanhamento contínuo. "Também sedia balcões de crédito, formalização, assessoria jurídica e uma área compartilhada permanente de trabalho colaborativo. As atividades são desenvolvidas por equipes locais, em diálogo com as potencialidades e vocações culturais de cada região", informa a Secretaria, acrescentando que mais de 3,5 mil produtores e fazedores culturais já receberam atendimento pela Rede de Incubadoras Brasil Criativo.

"A associação das iniciativas privada e pública são peças-chave na expansão e consolidação do desenvolvimento do setor. O Sebrae possui, desde 2011, um acordo de cooperação com o Ministério da Cultura para desenvolvimento de empresas de economia criativa. O objetivo é, até 2015, mapear o setor, capacitar empresários, promover a melhoria da gestão, dar apoio ao mercado e gerar negócios. Com visão estratégica do Sebrae junto aos empreendimentos criativos, a ideia é reduzir a dependência da subvenção", afirma a executiva do Sebrae, que está também elaborando um Guia do Empreendedor Criativo, a ser lançado até o final do primeiro semestre.

Artesanato brasileiro produz anualmente R$ 50 bilhões em vendas

O Brasil tem quase uma Dinamarca, com 5,6 milhões de habitantes, e um Uruguai, com 3,4 milhões, inteiros produzindo artesanato. São mais de 8,5 milhões de artesãos no país, gerando vendas crescentes e estimadas em cerca de R$ 50 bilhões por ano, que vem despertando nos últimos anos para a grandiosidade desses números e buscando transformar suas artes em negócios promissores. Muitos estão se reunindo em grupos produtivos para gerar renda essencialmente por meio do artesanato – núcleos que já ultrapassam a casa de 30 mil empreendimentos solidários no país e envolvem mais de 2 milhões de pessoas.

Entre esses grupos, estão os 64 de regiões de baixa renda que fazem parte da Rede Asta, um negócio fundado em 2005 por empreendedoras sociais com o objetivo de formar esses grupos, treinar e, principalmente, escoar a produção dos artesãos. Esses artistas brasileiros têm como principais dificuldades da profissão a relação com os fornecedores e a formação de preços e comercialização dos produtos. Denominados de "design feito à mão" na Rede, e a união em grupos tem colaborado para o crescimento desse mercado e, acima de tudo, para o desenvolvimento de comunidades, como instrumento de inclusão social e geração de renda.

Foto: Na Lata/Divulgação
Alice:"Estamos crescendo em média 30% desde 2008"

Os próprios números da Rede Asta dão essa noção. Alice Freitas, diretora-executiva e uma das fundadoras da Rede, conta que os três primeiros anos de funcionamento do negócio foram mais de aprendizagem. "Apenas em 2008 começamos a apresentar algum resultado, com R$ 7 mil em vendas. No ano passado, tivemos faturamento de R$ 1,135 trilhão com a comercialização de produtos e estamos crescendo em média 30% desde 2008", afirma. A rede também faturou cerca de R$ 1 milhão com projetos que desenvolve nessa área para terceiros e estima crescimento de 30% na venda de artesanato e de 20% na área de prestação de serviços, neste ano.

Conforme Alice, os grupos produtivos que fazem parte da Rede envolvem mais de 800 artesãos, sendo 90% mulheres, e estão espalhados por dez estados brasileiros. As vendas do ano passado geraram uma renda total de R$ 660 mil para esses artistas, que têm custos médios em torno de 12%. "Não são temporários. Os grupos entram na Rede, se beneficiam da estrutura de fornecimento e vendas e se tornam sustentáveis", diz a fundadora da Asta, que planeja ampliar o negócio, já que há uma lista de 90 grupos produtivos esperando para integrar a Rede.

País avança em tecnologia

Na área de P&D, o poder público vem aumentando gradativamente a participação no total de gastos, que cresceram 200% na comparação de 2004 e 2012, passando de R$25,43 bilhões para R$ 76,46 bilhões, conforme os últimos dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O número de incubadoras, que mal alcançava duas dezenas há cerca de 20 anos, também avançou e hoje já se aproxima de 400 em operação

O Brasil pode estar um pouco distante dos grandes centros mundiais quando os temas são tecnologia e pesquisa e desenvolvimento (P&D). No entanto, é inegável que temfeito esforço para crescer nessas áreas, que apresentam ainda muito potencial a ser explorado no país. Mapeamento sobre a economia criativa brasileira, elaborado pelo Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Riode Janeiro), aponta que o número de empregos formais na área de tecnologia cresceu 102,8% de 2004 para 2013, um indicador do avanço no setor. O estudo agrega em tecnologia os ramos de P&D,tecnologia da informação e comunicação (TIC)e biotecnologia;e todos,quando analisados separadamente, registraram altas superiores a 100% na geração de postos de trabalho.

Os especialistas afirmam que essas áreas cresceram muito em função de políticas e financiamentos públicos, já que a maior parte requer altos investimentos, para estimular o desenvolvimento e a produção local. Na área de P&D,por exemplo,o poder público vem aumentando paulatinamente a participação no total de gastos do país, que também cresceram( 200%) na comparaçãode 2004 e 2012, passando de R$25,43 bilhões para R$ 76,46 bilhões, conforme os últimos dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação(MCTI).A fatia pública subiu de 49,49% para 52,37%.No entanto,na participação empresarial estão incluídas empresas estatais também. Os valores totais corresponderam, respectivamente, a 1,31% e 1,74% do Produto Interno Bruto(PIB) e, apesarda alta, está longe do índice dos Estados Unidos, um dos maiores investidores mundiais em P&D em termos absolutos, que gira em torno de 2,7%.

Outro dado relevante que mostra o crescente interesse do país é o número de incubadoras, quemalalcançava duas dezenas há cerca de 20 anos e hoje já se aproxima de 400em operação. Nas incubadoras, empresas nascentes encontram um ambiente propício para inovar,com infraestrutura e consultoria emgestão e competitividade, entre outros suportes, alémda troca de experiências comoutros pesquisadores e de estarem numa vitrine para o mercado investidor. "Hoje, temos quatro empresas incubadas investidas por fundos sementes e a maioria também consegue captar recursos públicos, como os da Finepe CNPq, para financiar projetos, ou é bolsista. Nos últimos anos, os incentivos públicos para pesquisa aumentaram", diz Rafael Silva, coordenador da Habitat, incubadora especializada em biociências— nas áreas de saúde humana, animal, agronegócio,meio ambiente e insumos biotecnológicos.

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Silva: a maioria das empresas que estão na Habitat consegue captar recursos públicos, como os da Finep, CNPq e Fapemig

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Afonso: incubada desde2009, a Invita, da área de nutrição, recebeu R$500mil do Fundo Criatec e investiu, principalmente, em pesquisa

Criada em 1997 pela Biominas, que a gerencia em parceria com o governo do Estado de Minas Gerais, a prefeitura de BeloHorizonte e a Universidade Federal de Minas Gerais, a Habitat recebe semanalmente investidores que desejam conhecer as empresas, principalmente representantes de fundos,mesmo sendo a biociências uma área em que o retorno é considerado mais demorado, diz Silva. Entre a incubadas que receberam investimentos está a Invita Nutrição Especializada. No total, já foram quase R$3 milhões apenas para pesquisa, recursos que vieram do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), da Fundação de Amparo à Pesquisado Estadode MinasGerais (Fapemig), entre outros, dizWendelde Oliveira Afonso, diretor e um dos fundadores da empresa.

A Invita, incubada desde 2009, também recebeu R$500mil do Fundo Criatec, que é direcionado para capital semente, já aportou recursos em 36 empresas e cujos investidores são o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com R$80 milhões, eoBanco do Nordeste do Brasil (BNB),com R$ 20 milhões. Segundo Afonso, ao receber o investimento do Criatec, a empresa foi transformada em sociedade anônima para ganhar o novo sócio, que hoje detém 40% do seu capital. O diretor da Invita diz que os investimentos foram fundamentais para incrementar as pesquisas e desenvolver tecnologia,fórmulas e processos antes não disponíveis no país, um processo iniciado em 2006 quando seus fundadores ainda eram pesquisadores em universidades.

Especializada no desenvolvimento de produtos destinados adoenças metabólicas e alimentos para fins especiais, a empresa lançou suas duas primeiras fórmulas em 2012."Um deles, o Amix,para crianças comalergia ao leite devaca, é a primeira fórmula desenvolvida no país. Esse é um mercado ainda dominado por importados", diz Afonso, acrescentando que o fornecimento dessas fórmulas às famílias é gratuito e as compras são basicamente realizadas pelas secretarias de saúde.Com preços competitivos, cerca de 20% inferiores aos dos importantes, a Invita logo ganhou uma parte do mercado: em 2013,cresceu 1.900% em comparação ao primeiro ano de atividade e mesmo retirando domercado a fórmula Profenil por problemas na industrialização, que é terceirizada. Em 2014, a expansão alcançou 150%;e a expectativa é faturar o dobro este ano, quando deverá lançar ao menos mais três produtos, também frutos de tecnologias inovadoras. O retorno do investimento, afirma Afonso, já foi assegurado comos resultados de 2014.

Desde a fundação,a Habitat contabiliza 52 empreendimentos contratados, com faturamento acumulado de R$ 155,6 milhões até o final de 2014. Do total de incubadas, 27 delas já deixaram aHabitat e a primeira foi graduada em2002. Essas companhias registraram faturamento acumulado de R$ 727 milhões,entre de 2002 até o ano passado. Hoje, a incubadora tem 16 empresas, que ocupam 100% das instalações. Como o prazo médio de permanência das incubadas na área de biociências é longo, emtorno de oito anos, e a lista de espera cresce, a Habitat planeja ampliar as instalações, dobrando a área construída, de três milmetros quadrados atualmente, um projeto orçado em R$2milhões. "Estamos em fase de captação de parceiros e recursos.A meta é que o novo prédio esteja construído até o final de 2017",diz Silva.A nova área deverá ser destinada para as empresas com projetos de tecnologia da informação direcionados à saúde, a denominada digital health, um segmento que cresce muito e exige menor tempo de incubação, afirma o coordenador da Habitat.

Com preços competitivos, cerca de 20% inferiores aos dos importados, a Invita, em 2013, cresceu 1.900% em comparação ao primeiro ano de atividade, 2009


Empreendedores são criativos também para captar recursos
Mais acessível, equity crowdfunding é a nova moda de financiamento no mundo inteiro
Rizzo: com cinco mil investidores cadastrados e 260 empresas, o Broota logo captou R$850 mil

Muitos empreendedores, especialmente as startups, têm procurado alternativas bastante criativas para financiar seus projetos. Uma delas, e que começa a dar seus primeiros resultados no país, é a busca de recursos de investidores de menor porte por meio de plataformas na web montadas especialmente para essa finalidade: a injeção de capital em projetos empreendedores, que não precisam necessariamente ser da área de tecnologia. O sistema é conhecido como crowdfunding (financiamento coletivo), mais popular no Brasil por incentivar projetos artísticos, culturais, sociais e doações. Em alguns países, é bastante utilizado também em transações de empréstimos, não permitidas aqui, que respondem por cerca de 50% dos US$ 6 bilhões estimados que movimenta anualmente. O equity crowdfunding, que prevê participação dos investidores no capital das empresas investidas, no entanto, é uma forma nova de financiamento em âmbito mundial.

No país, o sistema pode atender empresas pequenas, com faturamento anual de até R$ 3,6 milhões que podem captar até R$ 2,4 milhões; é acompanhado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e foi iniciado peloBroota,de SãoPaulo, a primeira plataformaa apresentar resultados no segmento de equity. Contudo, já existe a Associação Brasileira de Equity Crowdfunding, presidida por Adolfo Melito, também presidente do Instituto de Economia Criativa,com nove associados, mas que ainda não apresentaram resultados. "Um dos grandes problemas do país é de financiamento. O crédito é caro e o suporte para as pequenas e médias empresas começa a crescer, mas ainda é incipiente", afirma Melito.

Frederico Rizzo,umdos fundadores do Broota, diz que a primeira captação da plataforma foi para o incremento do próprio Broota. A oferta foi iniciada em maio de 2014 e emtrintas dias foramobtidos os R$ 200 mil que a empresa precisava para investir no desenvolvimento da plataforma, contratar pessoas e implantar seu negócio pioneiro por aqui. Segundo Rizzo, o projeto atraiu 30 investidores e os tickets variaram de R$ 1 mil a R$ 50 mil, valores que poderão ser convertidos em ações do Broota, em cinco anos. "Foi um sucesso. Estava sozinho no mercado e tinhas três desafios principais:mostrar que o negócio é legal e bom, montar um time e mostrar que é um negócio necessário para o Brasil", diz Rizzo.

Fabianny: investidores do Broota, em menos de três meses, aportaram R$200 mil na Timokids

Bom também para os investidores, acrescenta, já que a companhia passou de um valor de mercado em torno de R$ 1 milhão para cerca de R$ 2 milhões, em menos de um ano. Com cinco mil investidores hoje cadastrados, sendo 150 ativos, e 260 empresas, o Broota já captou R$ 850 mil para alavancar quatro projetos, incluindo o seu. Segundo Rizzo, a meta é fechar este ano com R$ 4 milhões para ao menos dez projetos. Ele inclui uma nova captação de R$ 500 milhões para o Broota investir em tecnologia e ampliar a capacidade da sua plataforma, o que permitirá à empresa ser lucrativa emprazo de um ano, afirma Rizzo, para quem o mercado de equity crowdfunding deverá movimentar cerca de R$ 1 bilhão no país, em até dez anos, em captações para diferentes setores.

Depois de tentar várias maneiras de obter recursos e de ficar desanimada com custos e exigências, Fabiany Lima encontrou nesse modelo de captação o financiamento necessário para incrementar seu negócio recém-lançado, em parceria com quatro sócios: a Timokids, uma plataforma de leitura de livros infantis ilustrados em 3D e narrados e jogos socio educativos para crianças com até 12 anos. A empresa iniciou as atividades em março do ano passado, como lançamento do aplicativo, cujos conteúdos passam por curadorias de psicólogos e pedagogos e têm a proposta de dar orientações aos pequenos sobre questões cotidianas, como medo do escuro, além de estimular a coordenação motora, o raciocínio lógico e ser complementar à educação formal. Tudo de maneira divertida, diz Fabiany.

A ideia caiu no gosto dos investidores do Broota, que em menos de três meses aportaram R$ 200 mil na Timokids. "Tivemos 130% de reserva, ou seja, 30% acima da oferta. O melhor é que, dos 50 investidores, muitos são clientes da plataforma ou pessoas do mercado de tecnologia que, além da injeção de capital, estão nos ajudando a ser mais eficientes e a divulgar o aplicativo", conta Fabiany, observando que a empresa ganhou valor de mercado, após a captação, passando de estimativa de R$ 1,4 milhão para mais de R$ 2 milhões. Assim como o Broota, a Timokids também já planeja nova captação, especialmente para alavancar o aplicativo no mercado internacional, onde estão 30% dos usuários. "Hoje, os aplicativos estão disponíveis em 90 países. São narrados emtrês idiomas e a ideia é chegar a 10."

"Somente pessoas criativas podem gerar inovação"

Entrevista | Jean Sigel - Fundador da Escola de Criatividade

Curitiba ainda é um exemplo brasileiro de criatividade. Só no ano passado, o DNA inovador da capital paranaense foi reconhecido por duas instituições mundiais importantes: a Unesco, que selecionou o município para integrar a Rede de Cidades Criativas, na categoria Design, e o Instituto Europeu de Inovação e Estratégias Criativas, que concedeu o prêmio Hérmes de l'Innovation, na modalidade Qualidade de Vida das Cidades. Títulos que se juntam a tantos outros reunidos nas últimas décadas em áreas como sustentabilidade e de projetos urbanos e desenvolvimento tecnológico. "A vocação para Curitiba inovar está justamente em sua gente", diz o curitibano Jean Sigel, presidente da Escola de Criatividade, que, não por acaso, fica em Curitiba.

Foto: Divulgação
Textos: Adriana Teixeira
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Na sua opinião, o que levou Curitiba a fazer parte da Rede de Cidades Criativas da Unesco? Curitiba é a capital criativa do Brasil?

Curitiba é uma cidade que até hoje detém uma certa grife de cidade inovadora, modelo. Parte disso se perdeu, porém, ao longo dos anos, pelo crescimento da própria cidade e pela deterioração de projetos urbanísticos. Entretanto, vejo que Curitiba ainda detém em sua essência o DNA de uma cidade que se renova, questiona e cria. Os projetos e sistemas urbanísticos se foram, mas deram espaço para outras iniciativas inovadoras, como programas de educação ambiental. Uma geração inteira foi educada para reciclar e preservar o meio ambiente urbano. Hoje vejo Curitiba em um momento de reinvenção, com jovens de diversas partes do país mudando hábitos e inventando moda para o bem da cidade. Há tribos criativas espalhadas, mas pouco conectadas. Um bom exemplo vem do Design. Curitiba recebeu, recentemente, esse selo de Cidade Criativa do Design da Unesco, muito em função do engajamento, união e força dos designers e entidades que os representam na cidade. A vocação para Curitiba inovar está justamente em sua gente.

Dê exemplos da criatividade de Curitiba.

Curitiba é criativa em diversas frentes. Programas ambientais urbanos reconhecidos mundialmente, pólos de tecnologia atuantes como o de produção e criação de games, um movimento gastronômico vibrante que cresceu fortemente nos últimos 15 anos, design, ambiente cultural atuante e movimentos espontâneos que nascem em outras áreas o tempo todo. E, após anos de ausência ou omissão do poder público, vejo hoje que há uma crescente vontade política para apoiar e estimular novos movimentos da economia criativa na cidade. Tomara.

De que forma a Escola de Criatividade colabora para a criatividade de Curitiba?

Sempre nos envolvemos com as discussões e projetos práticos que contribuem para a inovação da cidade. Afinal, somos todos curitibanos, e meu sócio e co-fundador da Escola, Eloi Zanetti, é um apaixonado por Curitiba e, como escritor, deixou belas crônicas e obras sobre a cidade que cresceu e inovou sob seus olhos. Criamos, juntamente com o Sebrae_PR e a Fecomércio, o Movimento Curitiba Criativa, que reuniu, por dois anos, personagens e atores da economia criativa da cidade. O movimento continua de forma voluntária. Criamos também, como um produto próprio da Escola de Criatividade, o Festival Mundial de Criatividade, que teve sua grande première em 2013, com a participação de criativos de várias áreas de todo o país. O evento é realizado anualmente, e o próximo está agendado para o fim deste ano.

De que forma a Escola de Criatividade ensina criatividade?

Não ensinamos criatividade. Afinal, todos nascemos criativos. O que fazemos é desbloquear certos vícios e estimular pessoas para reconhecerem hábitos criativos negligenciados ao longo da vida. Basicamente inovação depende de pessoas. E somente pessoas criativas podem verdadeiramente gerar inovação. Criatividade é um atributo individual, já a inovação é um atributo das organizações, é o processo final. Por isso de nada adianta empresas, entidades e organizações repetirem o mantra da inovação a todo custo se, por outro lado, não permitem que seu capital humano possa desenvolver sua criatividade, questionar processos e mudar rumos. Não funciona. Já estivemos em vários estados brasileiros com o "15x15 Empreendedores Criativos", um evento em que identificamos e misturamos empreendedores de várias áreas que contam suas histórias em apenas 15 minutos, em um formato leve e descontraído, com exemplos práticos de como utilizaram a criatividade para crescer e inovar em seus negócios. Alguns vídeos estão disponíveis na web. Um outro exemplo de evento que desenvolvemos é o Provóquios, um embate de ideias para gerar soluções de forma prática para um determinado tema.

Qual a sua avaliação sobre o estágio em que se encontra a Economia Criativa hoje no Brasil?

Vejo como uma comunhão de interesses. Uma união de vários setores da sociedade para diversificar a economia do país apostando em seu maior asset, as pessoas e sua criatividade. No Paraná, estima-se que a economia criativa impacte apenas 1,5% aproximadamente do PIB, e no Brasil média de 2,3% do PIB. Mas só na cidade de São Paulo, que tem desenvolvido um consistente trabalho há alguns anos em torno da economia criativa, o impacto chega a quase 8% do PIB do Estado. Enfim, o Brasil ainda engatinha no desenvolvimento de sua economia criativa, mas tem ativos variados e quase únicos se comparados ao de outros países quanto a sua diversidade cultural, patrimônio histórico, folclore, música, artes e tecnologia, entre outros. O poder público, como habitualmente o menos inovador de todos os setores, deve ser capaz de quebrar o excesso de burocracia e observar mais áreas que surgem no país. As empresas devem pensar não apenas em mais produtividade, mas também em gerar conteúdo e valor. E as pessoas devem, como primeiro passo, se considerarem criativas para serem capazes de dar o segundo e próximos passos, que, por sua vez, surgem através do que chamamos de confiança criativa.

Quais dicas você daria àqueles que planejam empreender no mundo da Economia Criativa?

Esteja aberto a possibilidades, sem preconceitos e disposto a se conectar. Só com conexões e conhecimento é que o empreendedor saberá como tirar o melhor de seu negócio e do seu setor. Um bom produtor cultural precisa estar aberto a também entender de gestão e vendas. Um programador ou desenvolvedor de games precisa se conectar com designers. Um projeto de audiovisual precisa estar alinhado com parceiros que entendam de mercado, finanças e marketing para identificar as melhores oportunidades e parcerias. Mesmo não sendo capazes de prever e mensurar tudo, ainda, sim, vale a pena tentar, errar e fazer de novo.