25/03/2015 | 12:23 - Atualizado em: 25/03/2015 | 12:29

Segmento de cartões pré-pagos enxerga oportunidades em ano de crise

Com os juros altos e bancos mais seletivos, o plástico leva vantagem, já que mesmo quem perdeu o emprego e está endividado pode dispor dessa ferramenta para transferir dinheiro, além de pagar contas na internet

Léa de Luca lluca@brasileconomico.com.br

São Paulo - O ambiente econômico adverso, com aumento dos juros, do desemprego, da inflação, da seletividade dos bancos na concessão de crédito e da quantidade de endividados, pode favorecer o setor de cartões pré-pagos no Brasil.

A opinião é de Bernardo Faria, diretor executivo da Acesso, emissora independente de pré-pagos. “A modalidade atende a quem já se acostumou a ter um produto financeiro em mãos, mas agora eventualmente está perdendo emprego, e acha a conta bancária cara para manter; ou está inadimplente, com registro negativo e portanto com restrições ao crédito bancário”, diz. “Da mesma forma, para algumas empresas a adoção do pré-pago pode melhorar a eficiência”, diz, citando o caso de operadoras de microcrédito, com quem fechou parceria em janeiro.

“O pré pago pode ser mais barato e não faz restrições, pois não faz análise de crédito. Com ele, o portador tem um produto para guardar dinheiro, transferir de um para outro, fazer compras na internet — até em sites internacionais. Enfim, é um produto interessante para este momento”, acredita Faria. A Acesso já emitiu um milhão de cartões mas não revela sua meta para 2015. A empresa tem 2,5 mil pontos de recarga no varejo.

“Quando os bancos restringem o crédito, os cartões pré-pagos podem ser uma ferramenta de relacionamento com os clientes”, diz Alexandre Brito, vice-presidente de aceitação da Mastercard. Para ele, este ano vai ser melhor do que o ano passado para o segmento, até porque o negócio é novo e parte de uma base ainda pequena.

“Mas não muito melhor”, acredita. “Os de uso geral não devem sofrer tanto, até porque os desempregados ao passarem ao mercado informal podem recorrer ao pré-pago para administrar sua vida financeira. O pré-pago é uma ferramenta de inclusão social, uma espécie de conta simplificada”, diz. “Mas algumas modalidades de pré-pagos serão impactadas pela desaceleração econômica”, afirma. Entre essas modalidades, estão os “vaucher” alimentação e os vale-transporte.

A previsão de R$ 65 bilhões da MasterCard inclui movimentação do governo “Só a Caixa, que acaba de comprar o controle da emissora de pré-pagos Vale Presente, gerencia R$ 200 bilhões em programas sociais por ano. Até agora, nenhum desses programas está associado a cartões pré-pagos, mas essa é uma tendência natural”, diz .

Mesmo assim, o número ainda não é tão representativo se comparado com o total movimentado por todos os cartões (somando débito e crédito). Esse segmento movimentou cerca de R$ 1 trilhão em 2014.

Já Luiz Almeida, diretor de marketing da Super, acha que é sempre melhor trabalhar em tempos de economia em alta. “Mas certamente o setor de pré-pagos não está entre os mais prejudicados com a crise atual”, admite.

A ContaSuper, cujo controle foi comprado pelo Santander no ano passado, tem 230 mil contas e pretende chegar com 650 mil. “Para ser uma alternativa aos bancos, os pré-pagos tem atenda as necessidades do consumidor e ser mais barato. Almeida informa que a parceria fechada recentemente com a rede de terminais Tecban (Banco 24hs) permitiu reduzir à metade a tarifa de saques, para R$ 3,90.

O consultor Carlos Ogata, que é especializado no assunto — já trabalhou nas três principais bandeiras de cartões e foi diretor de marketing GSPP vê no interesse recente dos grandes bancos pelo segmento um sinal de que o negócio tem potencial . “Mas a conjuntura está muito difícil e eu não vejo o pré-pago como salvador da pátria”, afirma.

GreenDot, dos EUA, cresceu na recessão

A tese do potencial de crescimento dos pré-pagos em tempos de crise tem um importante respaldo: o exemplo da primeira emissora de pré-pagos do mundo, a GreenDot. Maior dos Estados Unidos, a empresa viu seus negócios crescerem exponencialmente na crise de 2008 e 2009 . No ano seguinte, em 2010, conseguiu abrir capital na bolsa em uma oferta inicial de ações (IPO) de US$ 2 bilhões, diz Bernardo Faria, diretor da Acesso.

No site da GreenDot, uma bem-humorada frase salta na tela inicial: “BigBanks? No, thanks” — em português, “Grandes bancos? Não,obrigado”. O slogan mostra que a empresa, assim como a Acesso, acredita que a inovação do segmento de pré-pagos está na independência dos bancos.
“Nos Estados Unidos, os principais emissores de pré-pagos são independentes. Ser uma alternativa a bancos é uma das vantagens”, diz Faria.

Além disso, os maiores “cases de sucesso” de microcrédito e “mobile payment” aconteceram em países sem sistema financeiro estruturado, na Índia e na África. “No Brasil a competição é dura”, diz Faria. 

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