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25/11/13 | 18:38 - Atualizado em: 25/11/13 | 18:38

Brasileiros vão ao Vale do Silício

Jovens empresários usam experiência adquirida na capital mundial da tecnologia para estruturar negócios inovadores

Rodrigo Carro redacao@brasileconomico.com.br
Andrea Litto e Henrique Setton da Silicon House. Foto:Divulgação

Cerejas, pêssegos e peras no lugar de produtos e serviços de alta tecnologia. Sessenta anos atrás, quem cruzasse a península central situada entre a Baía de São Francisco e as Montanhas de Santa Cruz, no estado americano da Califórnia, encontraria um cenário repleto de pomares em meio a um conjunto de bairros de classe média. Hoje, a concentração de empresas de ponta atrai um número crescente de empreendedores brasileiros para a região, conhecida como Vale do Silício.

A mudança na presença brasileira não foi apenas quantitativa. "A transformação foi drástica. Há muito mais brasileiros hoje, mas o interessante é a mudança enorme no perfil dos empreendedores", avalia Andrea Litto, 38 anos, há 19 nos Estados Unidos. "Antes, as pessoas vinham trabalhar e não se interessavam por conhecer ninguém, fazer contatos. Queriam fazer dinheiro e voltar ao Brasil."

A procura não apenas por hospedagem mas principalmente por facilitadores capazes de viabilizar as conexões com investidores, profissionais de tecnologia da informação e empresas levou Andrea a criar em 2012 a Silicon House, com o sócio também brasileiro Henrique Setton. Situada em Mountain View, uma das 40 cidades que fazem parte do vale, a casa já recebeu startups e empresas de mais de 14 países, entre eles o Brasil. "O relacionamento é o mais importante no Vale do Silício", afirma a alemã Angelika Blendstrup, uma das mentoras da aceleradora 500 Startups.

Há dez anos no Vale do Silício, Angelika se especializou no pitch training, treinamento que força o empreendedor a resumir seu plano de negócios (ou a atividade de uma startup) de maneira breve, compreensível e interessante. "Se você for capaz de contar uma boa história, os investidores vão se lembrar de você", ensina Angelika, autora do livro "They made it!" ("Eles conseguiram"), sobre empreendedores estrangeiros bem-sucedidos na área de tecnologia. No Vale Silício, uma boa história deve ser contada em, no máximo, três minutos. Pode parecer pouco tempo, mas quem trabalha com startups normalmente conhece o elevator pitch: nesse tipo de competição, o empreendedor deve resumir para potenciais investidores o objetivo de seu projeto em 30 segundos. O tempo é o equivalente à duração de uma viagem de elevador.

A capacidade de resumir seu projeto de forma atraente valeu ao carioca Roberto Riccio, de 25 anos, e a seu sócio João de Paula a inclusão num programa de aceleração da Y Combinator, uma das principais financiadoras de startups do Vale do Silício. "Eram 250 grupos concorrendo e cerca de 50 foram escolhidos. Cada um tinha dez minutos para expor seu projeto. Fomos a primeira empresa da América Latina a ser selecionada", lembra Riccio. Foram cinco meses de aprendizado no Vale do Silício, que serviram de base para a criação da startup Glio. O site é um guia local de estabelecimentos que permite aos consumidores avaliar e escrever pequenas resenhas sobre bares, restaurantes, supermercados, farmácias etc.

Formado em ciência da computação, o pernambucano João Paulo Oliveira, de 26 anos, conseguiu bolsa para estudar na Singularity University, instituição educacional privada focada em resolver por meio da tecnologia os grandes desafios da humanidade. Seu passaporte de entrada foi um aplicativo desenvolvido a partir da convivência com um colega portador de deficiência auditiva. Com mais de 100 mil downloads, o ProDeaf é um programa de tradução de texto e voz na língua portuguesa para a Libras - língua brasileira de sinais. Além do aprendizado, o período passado no vale - entre junho e agosto deste ano - rendeu encontros inusitados. Numa visita à sede mundial do Facebook, em Palo Alto, Oliveira conversava com um amigo na fila de uma lanchonete quando viu, dois metros à sua frente, o CEO e um dos fundadores da rede social, Mark Zuckerberg. "Tentei convencer meu amigo a me apresentar ao Zuckerberg, mas ele ficou envergonhado", conta o empreendedor. "No Vale do Silício, os grandes nomes não estão distantes, são pessoas normais", acrescenta Oliveira que, nos momentos de lazer, chegou a jogar frisbee (disco de plástico arremessado como divertimento) com um astronauta da Nasa.

Para o paulista Renato Stefani, de 23 anos, o caminho até a Singularity University foi mais difícil, mas igualmente gratificante. Stefani recorreu ao crowfunding (financiamento coletivo, comum hoje na web) para arrecadar os US$ 25 mil necessários para custear o curso de dez semanas de duração. "Consegui uma bolsa parcial. Foi uma das melhores experiências da minha vida", diz o engenheiro de controle de automação formado em 2012, em São Paulo. Logo de saída, o brasileiro descobriu que no Vale do Silício os empreendedores estão acostumados a pensar em escala planetária. "A Singularity University trabalha em projetos capazes de impactar um bilhão de pessoas ao longo de dez anos", explica Stefani, co-fundador da Live Memo, plataforma na web que agrega toda mídia social num só lugar.

Como projeto de fim de curso na Singularity University, Stefani e outros quatro estudantes criaram o Archy, um molde que, acoplado à boca, faz a escovação e passa fio dental em 30 segundos. Terminadas as dez semanas, o brasileiro decidiu permanecer no Vale por mais um mês, mesmo sem ter dinheiro para hospedagem e alimentação. "Quero voltar lá com emprego, para aprender mais", conta.

Com 80 alunos de 36 países diferentes, a turma de Stefani na Singularity é um retrato de um Vale do Silício cada vez mais aberto aos talentos do exterior. Em 2011, quase 50% dos profissionais empregados que residiam no Vale, com grau universitário ou pós-graduados, haviam nascido fora dos Estados Unidos, segundo dados da publicação "Silicon Valley Index". Nos segmentos de ciência e engenharia, o percentual é ainda mais alto: 64%, contra uma média americana de 26%.

Nas últimas décadas, aumentou a participação de brasileiros em escolas de ponta americanas, como Sloan School of Business, do Massachusetts Institute of Technology. "O número de brasileiros na Sloan cresceu muito desde que eu me formei lá, 24 anos atrás", compara Ricardo Betti, presidente do Sloan Alumni Club do Brasil. Segundo Betti, nos últimos três anos, em média 20 brasileiros por ano concluíram o MBA da instituição. "Na minha época, eu era o único brasileiro da turma", recorda.

NÚMEROS
50%:
Era o percentual de profissionais empregados nascidos fora dos EUA que residiam no Vale do Silício em 2011, com grau universitário ou pós-graduados.

64%: Era o percentual em 2011 de profissionais nascidos no estrangeiro que residiam no vale e trabalhavam nos segmentos de ciência e engenharia.

Dicas para viver com orçamento de US$ 55 por semana

Em agosto deste ano, quando terminou seu curso na Singularity University, Renato Stefani estava decidido a testar seus limites e descobrir qual seria o menor valor necessário por semana para viver no Vale do Silício. Chegou a gastar apenas US$ 55 por semana durante o período extra de um mês em que permaneceu na região. Voltou ao Brasil no fim de setembro e relatou sua experiência num artigo publicado na internet, que reúne conselhos preciosos para empreendedores com orçamento muito restrito.

O sucesso da empreitada, alerta o engenheiro, depende em grande parte da formação de uma rede de contatos antes da chegada aos Estados Unidos. São esses contatos - via comunidades do Facebook como a "Brasileiros no Vale" ou a "Brasileiros de Stanford", por exemplo- que podem ajudar na questão da moradia. Um lugar no sofá da casa de um conhecido significa uma economia de US$ 20 por dia, alerta Stefani no texto. Para quem dispõe de um orçamento um pouco mais robusto e deseja conhecer outros empreendedores, há locais especializados em receber profissionais de companhias iniciantes: a Startup Embassy e a Blackbox Mansion, entre outros.

No capítulo alimentação, Stefani sugere um cardápio que mistura refeições e suplementos, sem recorrer à junk food. Para o café da manhã e lanches, a base da dieta é formada por peito de peru, pão integral, queijo e frutas, a um custo de US$ 0,77 por dia. Para quem não dispensa o café no desjejum, Stefani ensina como aproveitar a tradicional hospitalidade das companhias locais, com visitas no horário da manhã. "Apresente-se por e-mail, e vá lá de qualquer jeito, tendo o e-mail sido respondido ou não. As empresas geralmente são muito abertas a visitantes. E sim, elas tem café, e muita comida! Salve uns biscoitinhos e barras de cereal para mais tarde", aconselha ele no texto.

O jantar pode sair de graça se o aspirante a magnata da internet conseguir lugar num dos diversos meetups (encontros com objetivo de reunir empreendedores)que acontecem durante a semana no Vale. É preciso apenas checar se o evento tem refeição patrocinada por alguma empresa. Para se deslocar na região, Stefani recomenda a compra de uma bicicleta usada - a partir de US$ 25 no site de classificados Craigslist.