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22/10/10 | 18:46 - Atualizado em: 22/10/10 | 18:46

Dólar desmascara competitividade da economia brasileira

Não é cambial, mas sim comercial e estrutural o problema brasileiro de competitividade externa, visível na redução da participação do setor industrial na pauta de exportações.

Cláudia Bredarioli redacao@brasileconomico.com.br
No setor de máquinas e equipamentos, a Voith é uma das exceções no cenário de aumento das importações e queda das exportações

Justamente por isso, segundo empresários e analistas, a possibilidade de solução para essa questão precisa vir da mesma seara: depende de reformas (como as tributária, previdenciária e trabalhista), de investimentos em infraestrutura e, principalmente, de incentivo ao desenvolvimento de inovação tecnológica.

São essas condições que irão elevar as empresas nacionais a outro patamar de competitividade externa, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima, e não medidas paliativas para conter a alta do dólar.

"O câmbio foge ao nosso controle, não temos como ter gerência total sobre a taxa porque ela reflete a relação com outras moedas", diz.

O problema da competitividade industrial não é só brasileiro, mas afeta também outros países em razão da super oferta de produtos e serviços global. Ocorre que a engrenagem mundial passou a precisar do Brasil para funcionar.

Enquanto isso, porém, as empresas brasileiras reclamam que estão perdendo negócios no exterior para concorrentes de outros países, por conta da falta de competitividade provocada pelo câmbio valorizado.

Entre os principais concorrentes está a China, cuja moeda, o iuane, está subvalorizada cerca de 40% em relação ao dólar. Ou seja, um produto chinês no mercado doméstico brasileiro leva vantagem de pelo menos 66%, somente pelo aspecto cambial, sem considerar os demais fatores, como custo de financiamento ou carga tributária, que também são favoráveis na China, segundo a Sobeet.

O ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, defende, contudo, que a redução da participação industrial na pauta de exportação não significa que haja desindustrialização no Brasil. "A China não está invadindo o Brasil. Exporta para cá produtos que não são feitos aqui", diz.

Nesse sentido, ele explica que a política industrial tornou-se muito mais abrangente desde maio de 2008, a partir de medidas tomadas pelo governo.

É no tocante à questão da inovação tecnológica, aliás, que o Brasil mais fica a dever na avaliação de seu setor industrial. Considerando-se que a tecnologia seja elemento primordial no crescimento sustentável de longo prazo de um país, o Brasil terá muito trabalho até atingir índices relevantes nesse segmento.

"Estamos muito mal colocados nos rankings de inovação, pesquisa e desenvolvimento", completa Lima.

As melhorias das técnicas de produção proporcionam aumentos de produtividade e auxiliam a reter bons resultados, avalia Guilherme Marco de Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

"Empresas com foco em inovação são mais competitivas em qualquer cenário e se expõem menos, por exemplo, a alterações cambiais. Mas um cenário com problemas estruturais tira o foco da inovação", diz.

Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, aponta ainda outro fator de estrangulamento no desenvolvimento competitivo das empresas nacionais: o ambiente político e administrativo ainda instável no Brasil traz risco de médio e longo prazos para a captação de investimentos.

Há que se considerar ainda que a taxa de câmbio é determinante para decisões de investimentos, financiamento das empresas, produção e importação, entre outros.

Nesse aspecto, a manutenção de uma taxa competitiva é essencial para a retomada do crescimento sustentável da economia, sobretudo, pelos seus efeitos diretos e indiretos sobre a estrutura produtiva.