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Negócios

21/10/10 | 18:51 - Atualizado em: 21/10/10 | 18:51

Economia deverá sofrer novo choque nos próximos anos

Jean Dermine, professor da Escola de Finanças da INSEAD em Fontainebleau, na França, analisa a complexidade atual dos mercados como fruto dos ciclos econômicos.

Bárbara Ladeia redacao@brasileconomico.com.br
Os Estados Unidos estão caindo numa espécie de armadilha de liquidez, avalia Jean Dermine

Ele parte do princípio de que, nos últimos 20 anos, a cada três ou quatro anos há um momento de choque que acaba afetando o mundo inteiro.

Considerando a situação dos déficits fiscais nos Estados Unidos e na Europa, o próximo choque, se vier em três ou quatro anos, terá consequências piores do que a crise de 2008.

Nesse caso, nem os emergentes se safam. Inseridos no cenário, a "impaciência" dos Estados Unidos na recuperação e as decisões que os países têm tomado de forma independente - como no câmbio - não ajudam.

Você acredita que a crise financeira internacional foi um colapso do sistema financeiro ou uma falha quanto aos parâmetros utilizados nesse setor?

Foi um colapso do sistema, pois, nos Estados Unidos, as hipotecas de 20 ou 30 anos estavam securitizadas nos mercados, ou seja, fora do sistema bancário, e a regulação não estava olhando para esta parte do mercado. Foi aí que o problema realmente começou.

Enquanto os investidores estavam dispostos a comprar títulos de curto prazo, que financiavam esses títulos, não havia problemas. O problema começou quanto esse mercado desapareceu.

A interferência dos governos na economia tem sido excessiva?

No momento da crise, não havia alternativa. Se não fosse a atuação dos governos teria sido um completo colapso do sistema bancário em todo o mundo. A recessão seria muito maior.

O principal problema dos países injetarem muito dinheiro nos bancos é que algumas economias têm déficits muito grandes. Agora o problema será como salvar os governos. Essa é uma grande questão nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Grécia, por exemplo.

O maior problema dos Estados Unidos hoje é a recessão e como ressuscitar a economia do país e administrar a macroeconomia.

Todas essas injeções de dólares na economia estão chegando ao consumidor final ou sendo reinvestidos na economia?

Com esses anúncios, os Estados Unidos caem numa espécie de armadilha de liquidez. Não há recuperação enquanto não houver retorno da confiança.

Pessoalmente, eu acredito que tantas medidas de suporte à economia americana acabam criando mais incerteza no mercado. As companhias entram em pânico e mantêm tudo o que podem em seus caixas, o que faz a recessão ainda pior.

Não sou a favor desses anúncios recentes do Federal Reserve. Esses anúncios espalham as incertezas no mundo, por isso as pessoas põem o pé no freio nos investimentos e suspendem o consumo.

O governo está indo ao mercado, comprando títulos e fica a pergunta: "Para onde está indo esse dinheiro?" Eu não acredito que ele possa ser reinvestido também. As empresas enfrentam um cenário de muita incerteza, vão manter esse dinheiro nos caixas.

As medidas são tomadas de forma independente e acabam repercutindo sobre as outras economias no mundo.

Os Estados Unidos têm tomado suas medidas por conta própria, sem propor um debate internacional. Eu acho que esse debate faz muita falta. Falta cooperação com o restante das economias e isso também espalha a insegurança pelo mundo.

Ninguém sabe o que os Estados Unidos pretendem fazer, ninguém sabe as medidas que serão adotadas pela China ou as taxações que o Brasil pretende aplicar sobre a entrada de capital externo, enfim, cada um toma suas decisões, o que acaba criando insegurança. Esse clima acaba afetando a economia em todo o mundo.

Você acredita no Fundo Monetário Internacional (FMI) como uma ferramenta para estabelecer esse diálogo? Na reunião do G20, na Coréia, em novembro, haverá espaço para esse debate?

Pessoalmente, eu não acredito que o FMI tenha uma posição de força nesse cenário. A reunião na Coréia será composta por países líderes e servirá para perceber quais os políticos estão dispostos a trabalhar coletivamente ou não. Eu não acredito em nenhum acordo vindo dessa reunião. Os objetivos europeus, americanos e chineses são muito diferentes.

Em termos regulatórios, os países já se readequaram após a crise?

Eu não acho que a regulação atual para o sistema financeiro seja adequada. Muitos negócios deverão continuar a ser feitos fora do sistema bancário, o que não é saudável. Uma vez que os bancos não são mais seguros, todos os negócios estarão fora dos bancos.

Como você vê a regulação brasileira sobre o setor bancário?

Embora não tenha vasto conhecimento para dar uma opinião bem fundamentada sobre a regulação brasileira, é fato que observei a economia do país durante as crise e os bancos se saíram muito bem. A intervenção do Banco Central tem sido muito saudável para o sistema financeiro brasileiro.

Lembro-me sobre o problema que o Banco Votorantim enfrentou e esperávamos que isso pudesse contaminar as outras instituições financeiras, o que não aconteceu.

Na sua palestra você comentou sobra a expectativa de um novo choque nos próximos anos.

Isso não é uma previsão. Se você olhar para os últimos 20 anos, a cada três ou quatro anos há um momento de choque, o que acaba afetando o mundo inteiro. Isso não é uma premonição que vá se realizar no futuro próximo, mas uma condição que se repete historicamente. Pode não ser exatamente um choque bancário, mas vai afetar à economia como um todo e com isso levará consigo as instituições financeiras.

Na Europa já existem países com déficits enormes, como a Grécia, por exemplo. Então vem a pergunta: "O que acontecerá se esses países derem o calote?" Não consigo precisar em que setor vai começar esse choque, mas a tendência que ele se espalhe por toda a economia e, consequentemente, chegue também ao setor financeiro.

A depender do tempo que esse novo choque levar para ocorrer, teremos uma gama de conseqüências diferentes sobre a economia. Se esse acontecer cedo, nos próximos dois ou três anos, o impacto será maior do que a crise financeira de 2008, porque vai reespalhar o pânico pelo mundo.

No entanto, se acontecer dentro de quatro ou cinco anos é melhor, pois os mercados já estarão brevemente recuperados desta crise.

Eu não acredito que os países emergentes passem ilesos dessa vez, porque o que sustenta as economias dos países emergentes são os altos preços de commodities e a grande demanda do mundo por essas matérias-primas.

Como esse choque vai afetar o mundo inteiro, com certeza vai prejudicar os preços das commodities e consequentemente afetará a economia brasileira, bem como outras economias exportadoras, como Rússia e Austrália. Não é uma premonição, eu realmente acredito que isso possa acontecer. Devemos estar preparados, de qualquer forma.

Na sua opinião, os bancos centrais no mundo estão prontos para enfrentar novas bolhas ou esse possível choque?

Enquanto a crise financeira de 2008 for recente, como é agora, certamente os bancos centrais vão tomar medidas interessantes para amparar a economia.

No entanto, o que mais me preocupa é que, uma vez acabada a crise, a economia mundial andará bem e será muito difícil para os bancos centrais frearem esse crescimento.

Na sua estimativa, em quanto tempo teremos a economia mundial recuperada?

Historicamente, a referência que temos é que as economias levam de sete a oito anos para se recuperar. É por isso que eu não entendo os americanos. Eles querem uma recuperação rápida, são muito impacientes. Mas a história nos provou que leva um tempo para que as companhias e os governos refaçam seus caixas, retomem seus fluxos e limpem por completo seus balanços. As empresas tomavam muito crédito no mercado, agora estão tentando reduzir esse volume. O melhor que podemos fazer é sermos pacientes.

Essa pressa vem principalmente dos governos que ainda não estão completamente convencidos de que esse tempo é necessário. Os governos precisam de resultados de curto prazo, como uma correção no alto desemprego, por exemplo. Eu os compreendo, é difícil ser paciente e esperar por sete ou oito anos para que possam ser colhidos os resultados.

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