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Negócios

10/10/11 | 16:54 - Atualizado em: 10/10/11 | 16:54

Europa retorna ao dilema das estatizações de bancos

O modelo de reestruturação do Dexia, baseado em socorros já realizados no sistema financeiro, pode ser o primeiro de uma série de resgates "preventivos" na região.

Felipe Peroni redacao@brasileconomico.com.br
"O modelo usado no Dexia é mais inteligente, pois pelo menos uma parte do banco mantém as operações normalmente", diz Fábio Kanczuk, professor da FEA

A situação dos bancos europeus se tornou o centro das preocupações do mercado financeiro, com o receio de que uma sequência de quebras no continente possa ter consequências desastrosas.

A queda da confiança nas instituições bancárias já contagia os bancos americanos. Nos últimos três meses, as ações do Citibank caíram 32,99% em Wall Street, enquanto o Bank of America acumula queda de 39%, e o JPMorgan Chase têm recuo de 18,5%.

Um problema semelhante à crise de 2008 parece mais provável, e os governos europeus mais uma vez precisam injetar dinheiro nos bancos.

No domingo (10/10), o banco europeu Dexia aceitou vender suas operações na Bélgica para o governo do país, por € 4 bilhões. Também se desfez de sua filial em Luxemburgo, vendendo para investidores no Qatar.

Em troca, recebeu dos governos da Bélgica, Luxemburgo e França garantias de até € 90 bilhões por dez anos, para assegurar o pagamento de suas obrigações.

"O que tem de mais característico nessa operação é a divisão entre um good bank e um bad bank", ressalta Fábio Kanczuk, economista da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

"Uma parte do banco é separada e fica com os ativos tóxicos, e a parte saudável continua suas operações normalmente."

Esse modelo foi usado na crise da Irlanda, em 2010. Na época, cinco instituições foram nacionalizadas, o que forçou o governo a pedir um apoio de € 85 bilhões à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

O próprio Dexia está sendo resgatado pela segunda vez. Em setembro de 2008, o banco recebeu um aporte de € 6,4 bilhões dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo, após o governo ter estimado perdas de € 350 milhões com a quebra do Lehman Brothers.

"O banco não chegou a quebrar formalmente, mas já era dado como insolvente", ressalta Kanczuk.

"É uma solução emergencial. Eles estão usando a saída que têm à mão, pois já estão atrasados", diz Nicolas Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi).

"O sistema financeiro europeu está, de certa forma, por um fio", diz.

O mais recente resgate ocorreu após reunião entre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em que os governantes decidiram tomar medidas para recapitalizar definitivamente os bancos europeus.

Os líderes prometeram elaborar um plano detalhado até a próxima reunião do G20, em novembro.

"Está se formando um consenso por lá, acredito que seja uma questão de semanas para isso se estabelecer. Serão feitas injeções de capital nos bancos antes que haja uma quebra", diz Kanczuk.

"O Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF) vai emprestar dinheiro para outros soberanos que não possam garantir seu sistema bancário, como Itália, Espanha e cia", explica.

Socorro ao Citi

Após a crise financeira de 2008, a recapitalização e a estatização parcial de bancos entraram nas carteiras dos governos. Em 2009, o governo americano realizou um dos maiores resgates da história quando recapitalizou o Citigroup, que enfrentava problemas de solvência.

O modelo foi diferente do Dexia. Nesse resgate, o banco não foi dividido, mas o governo realizou sucessivos aportes no banco, de modo a manter sua estrutura de capital.

"O modelo usado no Dexia é mais inteligente, pois pelo menos uma parte do banco mantém as operações normalmente", aponta Kanczuk.

Na época, o governo americano gastou US$ 45 bilhões com o Citigroup. O banco mais tarde devolveu US$ 20 bilhões em ações do programa de compra de ativos tóxicos do governo americano (TARP, na sigla em inglês), e o governo conseguiu vender suas ações com um lucro de US$ 12 bilhões.

Nesta tarde, os mercados financeiros reagiram bem, de uma forma geral, à intervenção, com os índices acionários subindo mais do que 1,5% no continente. Já as ações do Dexia tinham forte volatilidade: caíram 30% após a abertura, mas inverteram a queda em menos de uma hora.

"Nessa fase começam as variações brutais, as ações viram pó e depois voltam", diz Kanczuk.

Na época do resgate do Citi, a operação abalou os mercados, e as ações do Citi caíram 39% em um dia. Os papéis chegaram a cair abaixo de US$ 1,00, enquanto hoje as ações são negociadas por cerca de US$ 26,00. O governo americano chegou a deter 36% do controle do banco antes de vender sua parcela com lucro.

"A ação do governo é justa, porque ele castiga o acionista pagando um valor mais baixo pelas ações, e ainda dilui o acionista", explica Kanczuk.

"O que precisam fazer agora é sair da solução de curto prazo e propor algo abrangente para todo o sistema financeiro", diz Tingas.

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