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23/10/13 | 12:48 - Atualizado em: 23/10/13 | 12:48

Febre de restaurantes móveis invade São Paulo

Mudança na legislação e tendência global abrem as portas para o aquecimento das atividades ligadas ao Food Truck

Daniel Carmona redacao@brasileconomico.com.br

São Paulo - Há seis anos, a Kombi de Rolando Vanucci desperta o apetite de quem transita no cruzamento da Avenida Sumaré com a Rua Caiubi. Considerado o primeiro restaurante de rua sobre rodas da capital paulista, o proprietário do popular e também renomado Rolando Massinha aguarda pela "avalanche da moda", como ele mesmo diz, enquanto finaliza uma das 600 refeições que são servidas por dia.

A expectativa do empreendedor, que trabalha estacionado em um terreno particular justamente para driblar a falta de alvará, está relacionada ao projeto de lei que tramita na Câmara Municipal para regulamentar a venda de comida nas ruas da capital. Ou, para bom entendedor, o sinal verde para a tropicalização dos Food Trucks, a febre dos restaurantes móveis que nos últimos anos tomou conta das principais cidades dos Estados Unidos e da Europa. Por aqui, o projeto foi apresentado pelo vereador Andrea Matarazzo (PSDB) em parceria com os colegas Marco Aurélio Cunha (PSD), Ricardo Nunes (PMDB), Arselino Tatto (PT) e Floriano Pesaro (PSDB).

"Por diversos motivos, muita gente quer e vai vir para a rua. É um mercado enorme e sem concorrência. Eu mesmo estou prestando consultoria para quem está interessado. E olha que tem bastante gente", adianta Vanucci.

Uma das aventureiras dessa nova onda de empreendedorismo é Marcela Matsuo (foto abaixo), que desde 2010 faz comida japonesa em eventos fechados. Há três meses, ela investiu R$ 100 mil em uma temakeria móvel tanto para facilitar a presença junto aos clientes quanto para estar nas ruas a partir da nova legislação (que deve ser aprovada em caráter definitivo até novembro e regulamentada no primeiro trimestre de 2014).

"Posso estar presente tanto nos eventos corporativos e festas de família quanto na rua", diz ela, que já avalia a possibilidade de adquirir um segundo estabelecimento móvel. "O que mais me impressionou é que já surgiram interessados em abrir franquias do restaurante móvel", acrescenta.

O Food Truck da empresária, no entanto, não é apenas uma van convencional com uma cozinha. Ele foi desenvolvido em um baú com sistema pneumático que, através da suspensão, permite dissociar o estabelecimento do veículo. "Ele pode ficar no chão, no mesmo nível do cliente, e sem a necessidade da van no local".

Responsável pelo desenvolvimento da tecnologia, Davi Moreno, que desde o ano passado administra a VIC, empresa de soluções de customização dessas cozinhas (o baú também pode ser uma loja, showroom, etc), reforça a demanda aquecida em função das novas oportunidades de mercado.

"As encomendas cresceram 30% em relação ao ano passado. O curioso é que desde que começaram a falar sobre a lei da comida de rua, boa parte das consultas e orçamentos estão relacionados a esse assunto", diz ele. Cada baú parte de R$ 60 mil para projetos mais simples e pode chegar a R$ 150 mil, dependendo do nível de sofisticação e tecnologia. Se o cliente optar pelo uso de energia solar como fonte para os equipamentos,por exemplo, terá que investir mais R$ 20 mil.

Já a FAG Brasil, customizadora de veículos especializada no segmento de alimentação sobre rodas, observa uma expansão de 100% no número de consultas nos últimos três meses.

"A relação é direta com essa tendência dos Food Trucks", garante Gislene Viana, sócia-proprietária da empresa cujo volume de vendas em 2013 será 60% maior em relação ao ano passado. "A metade dos pedidos são para temakerias. O restante fica entre mexicanos, sorveterias, lanchonetes, cafeterias e pizzarias. Nesta semana recebemos um cliente que pretende trazer um ônibus de dois andares. Em baixo quer fazer a cozinha da pizzaria, em cima o salão".

A elevação de 125% no preço médio dos imóveis em São Paulo nos últimos cinco anos somada à falta de espaço para empreendimentos são alguns dos fatores que ajudam a justificar esse fenômeno.

"A preço praticado por restaurantes convencionais também é muito elevado. Eu não concordo com isso pelo fato de que antes de mais nada também sou cliente. Agora é preciso dar o alerta a quem for para a rua e não entender essa realidade: é preciso trabalhar com preço baixo ou há risco de se perder o bonde", finaliza Vanucci.

Restaurantes móveis motivam ação de marketing de marca de uísque; montadora vê desenvolvimento de nicho

O segmento do Food Truck não é uma realidade apenas para seus potenciais empreendedores. Na onda da tendência global que começa a desembarcar no país, os carrinhos de comida já motivam ações de marketing para divulgação de produto. Exemplo disso é a campanha iniciada na semana passada pela Pernod-Ricard para ampliar a visibilidade da marca de uísque escocês Jameson usando justamente um restaurante sobre rodas.

"O projeto nasceu há seis meses. Além da mídia tradicional e das redes sociais, a gente precisava de algo diferenciado. A divulgação do produto em festas, algo comum para bebidas, parecia insuficiente. Foi quando surgiu a ideia de buscar essa nova e diferenciada ferramenta", recorda Rafael Souza, Grouper da Jameson no país. Para a assinatura do cardápio, ele convocou o chef André Mifano, do renomado restaurante Vito. "O que a gente vê fora do país é que o Food Truck está associado a uma alimentação de qualidade, quase sempre assinadas por chefs ou culinaristas. Então, embarcamos nisso aqui também. E o André aceitou o desafio de entrar nessa cozinha apertada, pequena e despretensiosa", acrescenta. A van estará em funcionamento nas ações pontuais da marca na cidade de São Paulo até o final do ano.

Quem também observa atentamente os movimentos do mercado é a Mercedes-Benz, que na última segunda-feira fez um evento para apresentação das novas soluções customizadas para suas vans.

"Hoje ainda não é uma realidade de mercado, mas é certamente uma tendência. Vejo potencial crescimento a curto prazo não apenas para alimentação, mas para pontos comerciais móveis de uma maneira geral", Adriana Taqueti, gerente de vendas e marketing da Sprinter, veículo da marca alemã.

"Estamos em um ano de projetos embrionários. É o restaurante, a padaria, a doceria. No próximo ano vamos ter sim uma demanda interessante para o segmento, a ponto de criar um nicho de mercado tanto pela tendência natural quanto pelos eventos como a Copa do Mundo. A gente vai sair do zero para, talvez, cerca de 5% de representatividade nas vendas em relação a esses novos usos", acrescenta.

No segmento dos veículos comerciais leves, a Sprinter teve 14% de participação do mercado no ano passado. Em 2013, a expectativa da Mercedes-Benz é alcançar mais de 21% de share frente as demais montadoras.