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27/02/14 | 09:20 - Atualizado em: 27/02/14 | 09:20

Indústria da construção lucra na seca

A atípica falta de chuva do início do ano favoreceu o setor de material para obras no país. Vendas subiram 9,2% de dezembro para janeiro

Fernanda Nunes redacao@brasileconomico.com.br
Obras de arenas, como a do Corinthians, em Itaquera, São Paulo, ajudarão em 2014. Foto: Murillo Constantino

Rio - A seca atípica que marcou este início de ano e prejudicou a geração de energia, o abastecimento de água e, de quebra, o setor produtivo, para a indústria fornecedora para a construção civil tem sido benéfica. As vendas de materiais de construção avançaram 9,2%, crescimento que não seria comum nesta época do ano, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), Walter Cover. É possível que a estatística mascare a real situação do setor de construção, que acompanha o ritmo mais lento da economia. Essa constatação está evidente nos dados de comparação com janeiro de 2013, de alta de 1,5% - bem menos intensa que na passagem do ano. De qualquer forma, a seca foi suficiente para que os fornecedores ultrapassassem esse que seria o pior período do ano, tradicionalmente um empecilho à execução de obras.

Daqui para frente, os fabricantes de materiais de construção contam com as obras de infraestrutura, de construção dos estádios para a realização da Copa do Mundo e a continuidade do crescimento do segmento imobiliário para permanecer crescendo e fechar o ano com vendas 4,5% superiores às de 2013. Como as lojas varejistas, voltadas ao pequeno consumidor, respondem pela metade das compras dos materiais de construção, a expectativa é que a capacidade de consumo das famílias dite o desempenho do setor neste ano.

"Tudo vai depender da manutenção dos atuais estímulos do governo ao consumo das famílias - diretamente relacionado a crédito, emprego e renda -, de um maior dinamismo na execução de obras do segmento imobiliário e dos empreendimentos de infraestrutura, em especial portos e aeroportos", afirmou Cover. A avaliação do presidente da Abramat é que a economia apresenta alguns entraves que podem comprometer o setor, mas, no que diz respeito ao clima, a expectativa é de continuidade de uma fase mais favorável às obras, pelo menos, até o meio do ano, o que, em sua opinião, deve continuar beneficiando as vendas de materiais.

"Minha avaliação é que a nova classe média já consumiu tudo o que podia consumir de aparelhos eletrônicos, televisores, carros. Agora, é a hora de cuidar da casa, de comprar material de construção de melhor qualidade. O consumidor já não quer só carro, ele quer carro com ar-condicionado. E não quer só casa, quer um bom piso em sua casa", ilustra Josselei Delfini, diretor Comercial da Cerâmica Lanzi, fabricante de porcelanato, cujo principal foco é o fornecimento a lojas varejistas que atendem quem está construindo uma nova residência ou reformando. Os números da Abramat, de fato, revelam que o crescimento das vendas foi maior para obras de acabamento (3,9%) do que para materiais básicos (0,2%), na comparação de janeiro com igual mês do ano anterior.

"Na verdade, não vejo piora do cenário econômico. Muito pelo contrário. O ano foi bastante positivo para a Lanzi no ano passado e a expectativa é repetir esse quadro em 2014", projeta Delfini. No ano passado, as vendas da empresa cresceram 8,5%, mas o faturamento saltou 22%. Isso porque a cerâmica apostou em produtos de maior valor agregado, sem que, para isso, tenha precisado investir em novo maquinário ou aumentar expressivamente o número de pessoal. A perspectiva, diz o executivo, é repetir neste ano crescimento semelhante. Para isso, conta mais com a continuidade do poder de compra das famílias - variável diretamente relacionada à inflação e juros - do que com as obras de infraestrutura decorrentes dos leilões que estão sendo realizados pelo governo federal.

Sondagem realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), revela que já em fevereiro melhorou a expectativa do empresariado para a demanda no setor de construção nos próximos três meses. Para 31,1% dos entrevistados para a pesquisa, a situação dos negócios irá melhorar no período. Em janeiro, a proporção era de 30,1% e, em fevereiro de 2013, de 28,9%.