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22/10/10 | 15:00 - Atualizado em: 22/10/10 | 15:00

Vale transforma rejeitos em insumo para pisos e ladrilhos

Reza a cartilha da inovação que para uma empresa merecer ser chamada de inovadora é necessário, antes de qualquer coisa, imprimir o tema como motriz de sua cultura operacional.

Nivaldo Souza redacao@brasileconomico.com.br
Pelotas de ferro produzidas em Tubarão (ES) pela Val: até setembro deste ano já atingiram 36,8 milhões de toneladas

Mas a inovação interna nem sempre é tarefa fácil de se praticar, por envolver a criação de mecanismos de estímulo para engajar empregados.

Grandes empresas como EDP Energia e Samarco Mineração mantêm programas para incentivar o espírito colaborativo em seus funcionários. Elas oferecem prêmios, como bolsas de estudos, dinheiro e viagens, aos vencedores de rodadas de inovação interna.

A postura também foi adotada no ano passado pela maior mineradora do globo, com a criação do programa Inova Vale.

"O prêmio surgiu da busca pela revisão da postura dos empregados, para que eles participassem da evolução da empresa", diz o diretor de planejamento, desenvolvimento e melhoria contínua da Vale, Mauro Neves.

A iniciativa rende, agora, à companhia duas soluções tecnológicas que devem, ao mesmo tempo, reduzir custos produtivos e turbinar a geração de caixa no curto prazo.

Não à toa, a iniciativa criada apenas nas unidades brasileiras da Vale foi expandida neste ano para Austrália, Canadá, Indonésia e País de Gales. Resultado: 7 mil empregados participam por meio de formulários disponibilizados na rede interna (intranet) da empresa.

A mineradora registrou 22,5 mil sugestões neste ano, contra 7 mil no ano passado. "Esse aumento mostra como os funcionários reconhecem valor no prêmio, porque veem nele um estímulo ao desenvolvimento profissional.

Isso cria uma cultura de envolvimento interno", observa o gerente-geral da área internacional de suprimentos, Luiz Eduardo Reis da Cruz, um dos participantes do Inova Vale do ano passado.

A batalha interna envolve cinco áreas: economia de energia, reciclagem, segurança e velocidade de processo. Este ano, até dez premiados ganharão notebooks - no ano passado, os vencedores receberam bolsas de estudos para cursos escolhidos por eles.

A companhia estuda criar um banco de dados com as sugestões, que hoje passam pela seleção de 200 empregados e que, numa segunda etapa, serão avaliadas por júri técnico externo. "O próximo passo é criar uma bolsa de valores de ideias", diz Neves.

Menos rejeito

A pelotização do minério de ferro - compressão de grãos minerais em pequenas bolotas (como na foto acima), mediante processamento em altos-fornos - gera como subprodutos componentes argilo-minerais, entre eles sílica (areia) e lama (argila).

Esses rejeitos têm conteúdos químicos danosos ao meio ambiente, o que obriga a acumulação em barragens. A indústria mineral busca aplicações para esse material - caso da Samarco, que lançou o desafio a universitários de todo o país.

A opção da Vale foi encontrar solução caseira. Desafio que o coordenador de projetos siderúrgicos Miguel Pentes e o gerente de suprimentos Eduardo Cruz toparam.

Eles sugeriam a reutilização de rejeitos do processo de pelotização e a escória proveniente da transformação siderúrgica como insumos para a produção de revestimento cerâmico, como pisos e ladrilhos.

A ideia está em fase de estudo de viabilidade técnica e econômica na área de novos projetos da Vale. "Nos testes, identificamos que esse insumo pode substituir 85% das matérias-primas tradicionais", diz Pentes.

A Vale pretende, agora, firmar parceria com uma universidade federal para balizar os resíduos como insumos. Até 2012, o material deverá ser destinado à construção de casas populares. A estimativa é de que a venda do produto adicione US$ 490 milhões à geração de caixa anual da mineradora.

Fibra no lugar da bentonita

Outra ideia dos funcionários em fase experimental é a substituição do aglomerante químico bentonita (solução sódica para endurecer às pelotas) por fibras orgânicas. A solução é implentada na Usina de Tubarão (ES) e, até 2012, ganhará escala industrial.

A Vale não revela a origem da fibra, mas calcula que a eliminação da bentonita reduzirá em 20% o custo da pelotização, que consiste em concentrar o minério até o mínimo ideal de 65% de teor de ferro.